terça-feira, 31 de maio de 2022

Fragmentos...

Foto de arquivo pessoal




Eu diria que esse texto é um recorte das muitas falas que aparecem nos processos psicoterapêuticos que meus pacientes me dão a honra de acompanhar.... Nesse percurso que venho fazendo na Psicologia Clínica, tenho tocado em almas muito feridas.

Sujeitos que vão buscando contornos para a angústia que se apresenta. Vão transformando em sintomas... arranjos psíquicos para garantia da sobrevivência. Mas, como dizia Freud:

Nenhum ser humano é capaz de esconder um segredo. Se a boca se cala, falam as pontas dos dedos.”

Assim, essas frases não têm dono, ou seja, não é do paciente A ou B, são fragmentos que eu fui tecendo para elaboração do texto.

Uma costura delicada, o avançar da agulha não pode produzir mais feridas...

Hoje está difícil... tem um nó inteiro dentro de mim... como se tudo estivesse estrangulado, como se tudo fosse lamento e dor... não sei de onde vem tanto medo, não sei de onde vem tanta agonia... Será que Deus, que dizem ter uma infinita bondade, poderia me aliviar o peso da infância sofrida, de uma vida marcada por tantas inquietações. Já nem sei se acredito em Deus.

Meu coração bate apressado, parece que vou morrer! Sensação apavorante. Parei um pouco, presto atenção nesse bater descompassado e escuto meu coração dizer que queria ter sentido mais vida pulsando dentro de mim. Me interpelou sobre meu desejo... E eu desatei a chorar. Lembrei de você me pedindo para ter calma e respirar profundamente.

Muitas vezes me vi sonhando coisas lindas para minha vida. Tudo tão longe... somente pequenas degustações, como naqueles restaurantes em que nos apresentam tudo em pequeníssimas quantidades. Apenas com o intuito de nos abrir o apetite para consumir mais. Cansei! Cansei mesmo! Quero a mesa farta, quero me lambuzar! Se tive que sorver a dor em doses máximas, reivindico o direito de saborear o prazer!!

Não quero ouvir sobre o que eu tenho. Sei de tudo o que tenho. Estou falando do que não tenho. É disso que meu coração quer falar, é por isso que ele dói. Por aquilo que ainda não chegou, que eu não fui buscar, que eu não soube reter! É da falta que quero falar, do que não sei se virá, do que não sei se terei disposição para buscar, do vir a ser comprometido pelo desamparo vivido na infância.

Estou falando dessa forma sem parar, as palavras soltas, sem compromisso com o discurso certinho. Eu quero aliviar essa angústia que se avoluma dentro de mim, quero libertar minha alma... sinto os grilhões se arrastando... sinto a morte n’alma.

Quero me reencontrar. Quero encontrar esse desejo que você tanto fala... Quero mais: quero aquela alegria pura que eu sentia ao ver um pôr do sol. Lembro da primeira vez que vi o céu se avermelhando no horizonte. Estava no quintal da minha avó, era muito criança ainda e de repente o céu ficou alaranjado. Tive medo que fosse o fim do mundo, corri para dentro assustada.... Depois, aos poucos, comecei a gostar imensamente. Era tomada por uma forte sensação de renovação. Ciclos que se encerram.

Hoje não tenho o que falar, nem sei porque estou aqui. Nada muda!!!! Continuo ouvindo os gritos da minha mãe, falando para eu não comer isso ou aquilo, pois vou ficar gorda. E eu comia, comia, comia!!! E depois vomitava tudo forçosamente, o que eu queria mesmo era calar a voz dela dentro de mim. Não, eu não vomito mais. Aliás, acabo de me dar conta que estou há um ano sem vomitar! E isso é bom. Muito bom!

Sinto que um ciclo se encerra. Queria ficar uns tempos sem fazer terapia. Caminhamos tanto. Quero ver como toco minha vida sem estar segurando na sua mão. Obrigada!

Eu me despeço e fecho a porta.... Sentirei saudades.


Por

Mariangela Venas

sexta-feira, 1 de abril de 2022

Retornando ao blog....

 


Escolhi essa foto para ilustrar esse texto por ela ser bem atual e porque fala sobre a passagem do tempo. Hoje, ao terminar a aula da especialização, precisei arrumar uns arquivos no computador para selecionar os textos das muitas leituras que preciso fazer. Me deparei com essa foto. É a imagem que uso no Instagram e no LinkedIn. Por algum motivo essa foto me jogou imediatamente no ano de 1992. Último ano da faculdade. Exatos 30 anos!! Não voltam. Se foram para sempre.

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Lembrei do último dia de aula e a promessa feita a um grupo de amigas. Me comprometi a tomar um chopp para celebrar o término da faculdade. Por que essa lembrança? O que há de diferente em um grupo de jovens tomando um chopp ao final de uma aula, de um período, de um curso superior? Nada. Absolutamente corriqueiro. Mas eu queria finalizar um ciclo fazendo algo novo.... Um breve e leve entorpecimento diante do assombro de iniciar a vida profissional.

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Quantos sonhos! Mas eu tinha grandes desafios pela frente. Hoje me dou conta que foi uma grande pretensão, quase uma arrogância, considerando minha história de vida, fazer o curso de Psicologia. Sou dada a paixões mesmo. E teimosia também. Foi preciso persistir e insistir muito para trilhar esse caminho. Sem arrependimentos, apenas constatação.

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A foto, nesse fim de tarde em que chove torrencialmente no Rio de Janeiro, me mostrou as marcas do tempo. Daquela jovem restam o sorriso e a teimosia diante da vida. Eu não me cansei de acreditar que seria possível atuar como psicóloga clínica.  Há trinta anos a aquisição do diploma e, no presente, a responsabilidade de trabalhar como psicóloga em um mundo adoecido e com pessoas tomadas pela angústia.

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Toda vez que recebo um novo paciente eu fico pensando (e acreditando) que ele poderá visitar seu passado para tentar aquietar toda a gama de emoções ruidosas e dolorosas que o levam a uma repetição sem fim de comportamentos que resultam em dor e sofrimento. Esse sujeito poderá enveredar por um processo de reconhecer a si mesmo e assenhorar-se do seu desejo.... Mas é preciso coragem, é preciso olhar para a vida com bons olhos para seguir tão longa e fascinante viagem. É preciso teimosia também.... Dos dois lados.  A minha e a de quem me convoca a iniciar essa viagem.

Contudo, o tempo, esse senhor implacável, sussurra levemente no meu ouvido.... Não se perca na arrogância do saber, ancore sua atuação na clínica do cuidado. Se há  sofrimento é preciso ter respeito e tocar delicadamente nessa alma que se enlaça e se aprisiona na dor. Para que esse sujeito possa entender por si mesmo que novos laços podem ser feitos. E que ele pode ser o sujeito da sua própria história.

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Assim, essa foto mostra que o tempo me permitiu conhecer minhas dores e minhas inquietações, abraçar meus desafios e me tornar uma profissional que reconhece que não tem poderes mágicos para mudar histórias passadas e tampouco para entregar uma vida nova para seus pacientes. Cada um irá se haver como sua própria trama, com seus medos e com a incrível potencialidade do vir a ser. Cada um no seu tempo, claro, mas como disse Saramago...


“Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo. ”

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Ah... o chopp. Continuo não gostando. Amargo demais. Prefiro as doçuras da vida.


terça-feira, 16 de março de 2021

Cercas, cercados, limites...

 


A história da humanidade nos leva a entender que estamos em constante processo de mudança. E, sabemos, nem toda mudança é, necessariamente, evolução...

 

Nas últimas décadas, com o fenômeno da globalização, cunhou-se a expressão: Um mundo sem fronteiras. Sem fronteiras? Mas não é o limite estruturante? O sujeito não precisa entender o que é dentro e o que é fora? O que é seu e o que é do outro?


Quando se perde essa barreira entre o eu e o outro abre-se espaço para o sofrimento. É preciso haver diferenciação para que o sujeito possa imprimir sua marca no mundo. Se não há fronteiras, não sei bem quem sou ou para onde vou. Não sei como ancorar o meu desejo. Tudo é espraiamento...


Meu quintal termina quando começa a cerca do outro, um dito popular quase em desuso, sinal dos tempos modernos. Refletir sobre a necessidade das cercas, simbólicas que sejam, tem sido tarefa rotineira nos consultórios de Psicologia. O mundo globalizado e sem fronteiras, pode ser também o mundo do desamparo, pois na dificuldade da diferenciação encontramos indivíduos presos na impotência e na dependência.


A singularidade é a nossa marca no mundo. 

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Perda de Controle X Mecanismos Compensatórios = Ilusão do corpo perfeito.


 De acordo com o Dicionário Online de Português, temos a seguinte definição para Bulimia:

Substantivo feminino

Distúrbio alimentar caracterizado pela ingestão excessiva de alimentos, pelo aumento exagerado de apetite e pelo sentimento de descontrole alimentar; as pessoas com bulimia comem em excesso e, geralmente após as refeições, induzem o vômito.

Essas pessoas podem – também – fazer uso de laxantes ou uma prática excessiva de exercícios físicos para aliviar o “peso” da ingestão descontrolada de alimentos. Na maioria das vezes, o apetite exagerado se dá por alimentos altamente calóricos. E a ideia é de compensar o comer demasiado com ações que possam diminuir ou impedir a absorção das calorias presentes no alimento.

O sujeito acometido desse Transtorno Alimentar nutre a fantasia de que, ao eliminar imediatamente o alimento consumido não haverá ganho de peso.  

É um transtorno de causa multifatorial. Há uma maior prevalência entre as mulheres e pode aparecer em todas as classes sociais. Há uma preocupação excessiva com a imagem corporal. Algumas profissões onde há uma acentuada valorização da estética podem favorecer o desenvolvimento e/ou agravamento dessa patologia.

O Tratamento deverá ser com uma equipe multidisciplinar. No campo da Psicologia, é fundamental entender qual é a emoção que está atrelada ao ato de comer compulsivamente. Quem sabe, uma falha no processo de desenvolvimento do psiquismo, ocorrido lá na infância seja o elemento que impulsiona o comportamento atual. Vivenciou um sofrimento em um estágio inicial da vida em que – ainda - não tinha recursos internos para digerir.... 

Busque ajuda se você observar que tem episódios recorrentes de alta ingestão alimentar, associados a mecanismos de eliminação, bem como sensação de perda de controle e culpa.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Adolescência, impulsividade, álcool... Perigo!



Pesquisas têm mostrado que os jovens estão consumindo álcool de forma abusiva cada vez mais cedo. A partir de 13/14 anos, ou seja, ainda na adolescência quando os riscos são potencializados, pois o corpo está em desenvolvimento e o contato com o álcool é extremamente prejudicial ao organismo em formação.

 Outro dado interessante é que as meninas estão bebendo tanto ou mais do que os meninos e, por questões fisiológicas, podem apresentar mais danos biológicos na idade adulta.  E a drunkorexia tem sido mais comum entre mulheres, especialmente as universitárias.

Qual é o limite? 

Há muitos apelos para o consumo de álcool, embora seja uma substância tóxica, o uso é permitido e até mesmo estimulado. Em algumas situações, parece que não há alegria sem o álcool e, na sociedade da espetacularização, MAIS parece ser sempre MELHOR....

Proibir é a solução? 

O diálogo deve ser a base da relação entre pais e filhos. Mas os pais não podem se sentir acuados diante das exigências que os filhos fazem. Devem discutir objetivamente os prejuízos de uma vida como dependente de álcool, bem como os riscos associados, tais como, acidentes, atos de violência, exposição ao sexo sem segurança, dentre outros. Os jovens da atualidade, precisam entender que as frustrações e perdas fazem parte desse incrível movimento que é VIVER....

Assim, mais uma vez é preciso dizer que o excesso será sempre prejudicial ao organismo. Desprezar a possibilidade do indivíduo desenvolver dependência pode levar a um caminho difícil de trilhar no futuro. Famílias são massacradas pelo uso abusivo de álcool. É uma dor que atinge não apenas o dependente, mas muitos da sua convivência. 

Busque ajuda!

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

A Selfie perfeita

 



Olhe-se no espelho.... Não se compare com ninguém, apenas mergulhe na imensidão de ser quem você é. Tem marcas no seu corpo? Sim, é natural que tenha. Quanto que você já viveu e em quantas estradas já se aventurou, ou em quantos quartos sombrios você já fez morada? É a sua história, se encontre nela. Recolha tudo o que está espelhado e espalhado nesse ambiente. Tome posse. Somente ao tomar posse você poderá definir o que fica e o que não fica... o que pesa demais e o que não pesa nada.... Assim, deixe ir embora aquilo que já não te serve mais.

Não, não pense naquela atriz perfeita, naquela capa de revista incrível... pense apenas em você. Nos caminhos tortuosos que já enfrentou, nos prazeres vividos.  Atente-se a sua história. Ela é sua. Com todas as perdas e ganhos.

 Ganhou peso, perdeu peso? Seu corpo mudou? Faz parte dessa incrível jornada que é VIVER!

Se olhe no espelho! Sorria! Essa é a selfie perfeita. Ela traduz você.