sexta-feira, 24 de junho de 2016
segunda-feira, 2 de maio de 2016
Sofrimento
Semana passada, tratava no
consultório a questão da dor. Falava sobre o fato dela estar ligada a um objeto,
enquanto que o sofrimento (na ocasião, usamos a expressão angústia) compreende um
vazio intenso, como uma desintegração psíquica.
E hoje, ao ler o texto Bioética,
dor e sofrimento, de José Paulo Drummond*, deparo-me com esta ideia tão eloquente:
“A dor exige compreensão
racional e o sofrimento pede entendimento afetivo.
Podemos traçar o seguinte
paralelismo entre dor e sofrimento: a dor grita, o sofrimento lamenta‑se; a dor transita, o
sofrimento esmaga; a dor mutila, o sofrimento desintegra; a dor é percepção
presente, um “agora” sensível, o sofrimento é passado, memória, um “sempre”
subjacente; a dor é matéria que se faz cognição, o sofrimento é (re) sentimento
que se faz matéria (lesões psicossomáticas); a dor aponta para um local, o
sofrimento é um todo difuso; a dor necessita falar, se manifesta por
interrogações e interjeições, o sofrimento tende ao silêncio, a se exprimir por
lágrimas, na expressão de santo Agostinho, este “colírio da alma”, o coração
liquefeito a dissolver os nós.”
Espero sempre poder compreender
racionalmente a dor de quem me procura como Psicóloga, mas, principalmente, quero
ter o entendimento afetivo necessário para acolher e cuidar do sofrimento que atormenta
este, que me elege como alguém que pode trilhar com ele o caminho da sua
existência...
Por Mariangela Venas
* José Paulo
Drummond é livre‑docente
e professor adjunto da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de
Janeiro (UFRJ).
segunda-feira, 25 de abril de 2016
Um bom filme...
O filme traz um recorte muito interessante da trajetória desta revolucionária psiquiatra brasileira.
Uma frase que marca a sua prática em Saúde Mental:
" O que melhora o atendimento é o contato afetivo de uma pessoa com outra. O que cura é a alegria, o que cura é a falta de preconceito. "
(Nise da Silveira)
Me curvo diante desta afirmativa porque - cotidianamente - procuro vivenciá-la na minha prática como Psicóloga.
Para saber mais sobre Nise da Silveira:
segunda-feira, 4 de abril de 2016
Depressão...
Aprecio muito este vídeo
realizado pela Organização Mundial de Saúde. A animação retrata os sintomas da
depressão de uma forma leve e bem explicativa. Importante assistir.
Depressão é uma questão séria.
Não é frescura; não se resolve com tanque de roupa para lavar (ainda se fala
isso pelo Brasil...); não cura em mesa de bar, tomando Chopp com um amigo; uma
voltinha no shopping não resolve os problemas decorrentes da depressão; psiquiatras
e psicólogos não são profissionais de “malucos”...
“Quem é esta Senhora lúgubre que se impõe sem pedir licença
e sem dizer a que veio? Ela se instala: um aperto no peito, aquele nó na garganta,
medos aflorados... A Senhora parece gostar dos medos, quem sabe, até, se
alimenta deles e, com sua fome voraz, vai tragando toda confiança e, quase
sempre, toda esperança.... De repente um vazio insondável... Dor!
A depressão é uma Senhora de vestes tristes. É resoluta.
Apossa-se da vida alheia, mina a vontade, apaga a luz do sol, apaga o sorriso
do rosto. Não se curva diante da dor. Ela manda:
Não queira
Não sinta
Não vibre
Não seja
Não! Não! Não!
Vazio. Vazio. Vazio.
Se diz a Senhora de todas as impossibilidades e
impotências...
Não há possibilidade de cura da depressão fora do cuidado.
O cuidado médico (Psiquiatra) e o cuidado da psicoterapia (Psicólogo). Sem essa
combinação de cuidado e acolhimento a doença fica no colo da Senhora fúnebre.
Uma mãe desalmada, amamentando com desesperança o filho doente...”
A depressão já é
considerada uma das doenças mais incapacitantes pela OMS. As políticas públicas
de saúde precisam estabelecer ações mais eficazes para tratamento e prevenção
da doença.
segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016
FAMÍLIA e os tempos modernos.
.
O psicólogo clínico, de
maneira geral, está sempre envolvido com o tema FAMÍLIA... Trata-se de um tema
recorrente, tendo em vista que tudo começa a partir de uma família.
Na atualidade, as famílias se
configuram de variadas formas. Aquelas do comercial de margarina aparecem como
sonho de consumo no imaginário popular. Contudo, elas já não refletem a
realidade absoluta... Até mesmo o aplicativo WhatsApp atualizou seus emoticons
para retratar outros modelos de famílias, como as homoparentais, por exemplo.
Hoje, vou compartilhar um
texto que considero muito apropriado. Foi publicado na revista Veja (14 de
fevereiro de 2007), é um texto da
escritora Lya Luft. Embora tenha
quase 10 anos a publicação é de uma pertinência que, para mim, o fez atemporal.
As questões apresentadas pela
autora são questões que cotidianamente aparecem no meu trabalho como psicóloga.
São as dúvidas de pais, avós, responsáveis e são, muitas vezes, o resultado de
uma convivência familiar que deixou marcas.... Algumas tão doloridas que nem o
tempo consegue aplacar...
Vou
apresentar o texto na íntegra e destacar alguns trechos que considerei
impecáveis! Boa leitura, envie comentários.
“ FAMÍLIA TEM DE SER CARETA
Esperando uma reação de espanto
ou contrariedade ao título acima, tento explicar: acho, sim, que família deve ser careta, e que
isso deve ser um bem incomparável neste mundo tantas vezes fascinante e tantas
vezes cruel. Dizendo isso não falo em rigidez, que os deuses nos livrem dela.
Nem em pais sacrificiais, que nos encherão de culpa e impedirão que a gente
cresça e floresça. Não penso em frieza e omissão, que nos farão órfãos desde
sempre, nem em controle doentio – que o destino nãos nos reserve esse mal dos
males. Nem de longe aceito moralismo e preconceito, mesmo (ou sobretudo)
disfarçado de religião, qualquer que seja ela, pois isso seria a diversão maior
do demônio.
Falo
em carinho, não em castração. Penso em
cuidados, não suspeita. Imagino presença e escuta, camaradagem e delicadeza,
sobretudo senso de proteção. Não revirar gavetas, esvaziar
bolsos, ler e-mails, escutar no telefone, indignidades legítimas em casos
extremos, de drogas ou outras desgraças, mas que em situação normal combinam
com velhos internatos, não com a família amorosa. Falo em respeito com a
criança ou o adolescente, porque são pessoas, em entendimento entre pai e mãe –
também depois de uma separação, pois naturalmente pessoas dignas preservam a
elegância e não querem se vingar ou querer continuar controlando o outro
através dos filhos.
Interesse não é fiscalizar ou
intrometer-se, bater ou insultar, mas acompanhar, observar, dialogar, saber.
Vejo crianças de 10, 11 anos frequentando festas noturnas com a aquiescência de
pais irresponsáveis, ou porque os pais nem ao menos sabem por onde elas andam.
Vejo adolescentes e pré-adolescentes embriagados fazendo rachas alta noite ou
cambaleando pela calçada ao amanhecer, jogando garrafas e carros que passam,
insultando transeuntes – onde estão os pais?
Como não saber que sites da
internet as crianças e os jovenzinhos frequentam, com quem saem, onde passam o
fim de semana e com quem. Como não saber o que se passa com eles? Sei de meninas, quase crianças, parindo
sozinhas no banheiro, e ninguém em casa sabia que estavam grávidas, em pai nem
mãe. Elas simplesmente não existiam, a não ser como eventual motivo de
irritação.
Não entendo a maior parte das coisas solitárias e tristes que
vicejam onde deveria haver acolhimento, alguma segurança e paz, na família.
Talvez tenhamos perdido o bom senso. Não escutamos a voz arcaica que nos faria
atender a crias indefesas – e não me digam que crianças de 11 anos ou
adolescentes de 15 dispensam pai e mãe. Também não me digam que não têm tempo
para a família porque trabalham demais para sustenta-la. Andamos aflitos e
confusos por teorias insensatas, trabalhando além do necessário, mas dizendo
que é para dar melhor nível de vida aos meninos. Com essa desculpa não os
preparamos para este mundo difícil. Se
acham que filho é tormento e chateação, mais uma carga do que uma felicidade,
não deviam ter tido família. Pois quem tem filho é, sim, gravemente
responsável. Paternidade é função para a qual não há férias, 130 ,
aposentadoria. Não é cargo para fiscal tirano nem para um amiguinho a mais: é
par ser pai, é para ser mãe.
É preciso ser amorosamente atento, amorosamente envolvido,
amorosamente interessado. Difícil, muito difícil, pois os tempos trabalham
contra isso.
Mas quem não estiver disposto, quem não conseguir dizer “não’ na hora certa e
procurar se informar para saber quando é a hora certa, quem se fizer de vítima
dos filhos, quem se sentir sacrificado, aturdido, incomodado, que por favor não
finja que é mãe ou pai. Descarte este papel de uma vez, encare a educação como
função da escola, diga que hoje é todo mundo desse jeito, que não existe mais
amor nem autoridade... e deixe os filhos à própria sorte.
Pois, se você se sentir
assim, já não terá mais família nem filhos nem aconchego num lugar para onde
você e eles gostem de voltar, onde gostem de estar. Você vive uma ilusão de
família. Fundou um círculo infernal onde se alimentam rancores e reina o
desamparo, onde todos se evitam, não
se compreendem, muito menos se respeitam.
Por tudo isso e muito mais, à família moderninha, com filhos
nas mãos de uma gatinha vagamente idiotizada e um gatão irresponsável, eu
prefiro a família dita careta: em que existe alguma ordem, responsabilidade,
autoridade, mas também carinho e compreensão, bom humor, sentimento de
pertença, nunca sujeição.
É bom começar a tentar, ou parar de brincar de casinha: a vida
é dura e os meninos não pediram para nascer. ”
E para você? O que é
ser pai e mãe? Vamos falar sobre isso? Deixe seu comentário. Sugira temas.
Por Mariangela Venas
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016
Sugestão de um bom filme: A Garota Dinamarquesa
Abordou uma temática delicada com o respeito merecido pelas pessoas que vivem dramas semelhantes.
E a riqueza da obra se deu especialmente porque abriu mão da banalização do tema.
Os atores estão irrepreensíveis na forma como conduziram seus personagens. A sutileza e a beleza da transformação do casal remete a um amor incondicional. Difícil nos tempos pós modernos...
A última cena é um presente para quem gosta de simbolismos...
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016
Contradições...
Costuma-se
dizer (e não gosto muito desta ideia...) que o ano começa após o Carnaval. Que
seja assim, então, que o ano finalmente comece e possamos cuidar um pouco mais
daquilo que realmente importa.
O carnaval
trouxe para avenida a exuberância de corpos esculpidos em muitas horas de
exercícios intensos, dietas rigorosas, cirurgias estéticas e, quem sabe, algumas
doses de anabolizantes. Corpos perfeitos... diriam alguns.
Verão, tempo
de férias, praia e um olhar um pouco mais atento me sugere que a cada estação há
um contingente maior de pessoas obesas disputando um lugar ao sol...
Ao que me parece,
estamos lidando com dois extremos: o corpo exaustivamente cultuado e o corpo
negligenciado. Onde há excesso é comum encontrarmos problemas.
A OMS
considera a obesidade como um relevante problema de saúde pública. Nunca se
falou tanto em alimentação saudável; em treinamentos funcionais; em tratamentos
e intervenções cirúrgicas para o corpo perfeito. Exclui-se da alimentação sem o
menor critério glúten, lactose e até o arroz e feijão, que tem sido a base
alimentar dos brasileiros por anos e anos. Tudo com a proposta de reduzir o
peso e, quem sabe, aplacar a culpa por sentir fome. Come-se muito e arrepende-se muito, em um
movimento de significativa compulsão.
Assim, o
corpo, embora cultuado maciçamente na atual sociedade é também um corpo marcado
pela obesidade. A alimentação deixou de ser um processo natural de
sobrevivência e prazer para se tornar um fardo na vida contemporânea.
E isso parece
ser provocado pelo fato de estarmos buscando respostas para as angústias mais
primitivas na comida. Se há um vazio, provocado por uma ausência afetiva,
busca-se o preenchimento em um pedaço de torta. Se houve um aborrecimento no
trabalho, a saída é afogar as mágoas em petiscos na saída da empresa.
Utiliza-se como recurso, quase exclusivamente a geladeira.... Não se tem uma
disposição interna para lidar com os dissabores do cotidiano, percorre-se,
assim, o caminho supostamente mais fácil da compulsão à repetição. Em uma
infindável luta entre a balança e a dificuldade de lidar com aquilo que está
provocando o desassossego. Vai-se avolumando o corpo, como se buscasse uma
prótese psíquica para conter a inquietude da alma...
Em seu livro
A Cabala da Comida, Nilton Bonder fala sobre a ambivalência do querer ser magro
e do impulso que remete o indivíduo à geladeira para aplacar até mesmo a
necessidade de estar em contato como a própria essência. E diz:
“Uma criança nasce, cresce, chora. Está com fome, com
frio, solitária, não consegue entender o que está acontecendo. Está assustada e
confusa. Em cada uma destas situações a mãe pega a criança e a leva ao seio. E
então a criança se sente bem novamente.
E nós, o que fazemos? Sentimos fome? Vamos até o
refrigerador. Sentimos frio? Vamos até o refrigerador. Não entendemos o que
está acontecendo no mundo? Vamos até o refrigerador. Estamos deprimidos?
Queremos estar em contato com nossa essência? Vamos até o refrigerador.
No entanto, pode ser apropriado ao bebê ir ao encontro do
seio quando diante de todas estas necessidades, pois o seio, com certeza, dá
todas estas respostas e diz algo que tem a ver com estar solitário ou com frio,
solucionando os problemas. E se o sentimento é de estar confuso, há descanso no
seio...”
Assim, é preciso
que se tenha acesso a fonte certa para aplacar a angústia, na repetição
automática não haverá a saída, porque...
“E todo este meu tecido adiposo em excesso não é nada
mais do que um sinal de que não me dirigi à fonte correta. Estava procurando
algo que me ajudasse de imediato e recorri a apenas uma fonte quando deveria
ter recorrido a outras. ”
Por Mariangela Venas
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